
Sempre me perguntam o que uma pessoa precisa saber antes de se expor em uma entrevista. Por isso resolvi publicar essa despretensiosa lista de coisas para serem observadas por quem tem algum tipo de interface com a imprensa. O texto foi utilizado em um treinamento para empresários e dirigentes da construção civil de Curitiba, em 2008, e pode ser útil em diferentes programas de midia training. Fique à vontade para fazer seus comentários.
LEMBRETES PARA ENTREVISTASExistem muitos manuais sobre como dar entrevistas, como se comportar diante das câmeras e como melhorar a performance, porém o termo “manual” não é adequado. Melhor seria chamar essas publicações de “lembretes”. São tópicos para os quais o entrevistado deve ficar atento. Eles melhoram em alguns pontos o desempenho diante das câmeras, microfones e gravadores. Muitas dessas dicas são periféricas e só funcionam se forem observadas as virtudes centrais de uma entrevista:
* Conhecimento sobre o tema
* Simplicidade no raciocínio
* Clareza no posicionamento
Esse é o nível 1. Somente a partir dele é possível desenvolver os demais talentos importantes para um bom aproveitamento das oportunidades na mídia:
* Conhecimento sobre o modo de trabalhar da imprensa
* Domínio sobre a fala
* Capacidade de síntese
* Noção e controle do ambiente
Toda entrevista é uma oportunidade de relacionamento que se abre e assim como qualquer outro relacionamento este também pode significar negócios, rede de contato, abertura de novas perspectivas. Essa é a primeira dimensão da entrevista. A segunda é a da imagem pública. Seus pares possivelmente assistam a uma entrevista sua e poderão confirmar as impressões que têm sobre sua personalidade e seu modo de agir. Sua família fará alguns comentários, seus antigos amigos de escola talvez mandem emails ou mensagens no Orkut. A entrevista será para eles um dado a mais na sua imagem. Porém o “público”, aquela massa que não o conhece ou conhece apenas vagamente, esse grupo tende a basear totalmente na entrevista o conceito que formará a seu respeito. Essa breve exposição será fundamental para construir sua imagem pública. É como a história da primeira impressão, a que vale, e nesse caso é uma primeira impressão partilhada por milhares de pessoas.
1 – CONHECIMENTO SOBRE O TEMANão basta saber com antecedência qual será o assunto da entrevista; é necessário preparar-se para ele. Antes da entrevista, recuperar informações, recapitular o histórico do assunto, preparar alguns dados objetivos e repassar mentalmente quais as posições da organização a respeito. Se necessário, consultar outros diretores para confirmar as posições coletivas.
Feito isso, “entreviste-se”, perguntando a si próprio tudo o que pode lhe parecer pertinente nesse caso e repetindo as respostas que lhe parecem as mais adequadas.
Habitue-se a ter opinião sobre os temas da sua área. Mas lembre-se de que opinião não é achismo. Poucos se interessarão pelo que alguém “acha” sobre isso ou aquilo. Opinião é argumento, uma tomada de posição a partir de um embasamento forte e consistente.
Sonde o nível de conhecimento do jornalista sobre o tema. Isso é importante para ajustar o seu discurso. Se ele estiver “tateando”, seja didático. Se mostrar ser um especialista, bem informado e muito acima do nível básico, explore aspectos menos comuns do tema. Isso é quase uma garantia de que haverá um bom aproveitamento da entrevista.
2 – SIMPLICIDADE NO RACIOCÍNIOA genialidade está sempre nas expressões mais simples. Se é Bayer é bom. A Galvão acha fácil o imóvel que você acha difícil. Impossível comer um só. Energia que dá gosto. O primeiro a gente nunca esquece... Não quer dizer que você vai se expressar por slogans, naturalmente, mas sim que é possível resumir muito em pouco texto. Na TV, especialmente, o seu raciocínio deve ser polido, resumido ao essencial, porque o essencial é tudo o que o telespectador poderá assimilar.
Pensar simples às vezes é o mais complicado. As pessoas se acostumam a agregar vários argumentos, explorar cada detalhe. A escola provoca isso, porque prioriza a análise em vez da síntese. Na entrevista, seja sintético, concentre tudo na idéia central e mantenha-se nela.
A resposta não pode ser uma equação, com chaves, colchetes e parênteses, um pinheirinho de Natal. Foque-se naquilo que interessa e deixe os detalhes para outra ocasião.
3 – CLAREZA NO POSICIONAMENTOAntes de partir para a entrevista, decida qual é o seu lado. O que a organização pensa a respeito. Qual é o ponto. Se isso não estiver muito claro para você e para a organização, não dê a entrevista, pois ela tende a ser desastrosa. Quando estiver em questão alguma culpa, algum erro da organização, assuma a responsabilidade, com bom senso e discernimento. Não exagere ao fazê-lo, não comprometa a organização, porém mantenha a clara idéia de que os compromissos públicos serão respeitados. Já vá para a entrevista com a lista de ações tomadas para sanar o erro.
4 – CONHECIMENTO SOBRE A IMPRENSAAvalie os jornalistas e as peculiaridades do trabalho deles. Existe um site, o www.comuniquese.com.br, que é freqüentado basicamente por jornalistas e publicitários. Coloque-o nos seus Favoritos e analise o que é importante para esses profissionais quando eles estão em seu próprio ambiente. Outro site interessante é o do Observatório da Imprensa (www.observatoriodaimprensa.com.br), em que os erros da própria mídia são julgados e comentados pelos pares jornalistas.
Sempre é útil conhecer os editores da sua área de atuação nos principais veículos. Quem edita Economia na Gazeta do Povo, por exemplo? E n'O Estado do Paraná? É bom conhecer essas pessoas, estabelecer com elas um relacionamento profissional. O mesmo vale para colunistas especializados.
5 – DOMÍNIO SOBRE A FALANão existe “voz ruim” para a mídia. Exceto alguns casos patológicos, que devem ser tratados por um fonoaudiólogo, não existem restrições. Mas é importante lembrar que a TV e o rádio dependem muito da clareza com que falamos.
Diga claramente ca-da-u-ma-das-sí-la-bas. Existe uma tendência de engolir partes das palavras. Lembre-se de que cada sílaba deve ser integralmente pronunciada.
Se estiver um pouco inseguro, experimente falar um pouco mais alto, com mais energia. Isso aumentará a sua sensação de firmeza.
Beba água antes da entrevista. A lubrificação facilitará a fala e evitará aqueles estalos que são ouvidos quando a pessoa está com a boca seca.
6 – CAPACIDADE DE SÍNTESELembre-se do macete “o que quero dizer?” E diga. A idéia desse exercício tão simples é reduzir a mensagem ao essencial. O que quero dizer? É isso, e só isso. Se a situação for complexa, a síntese será ainda mais útil, porque evitará que você abra um flanco a cada detalhe que aborda.
7 – NOÇÃO E CONTROLE DO AMBIENTESe vai dar entrevista em um estúdio, procure chegar mais cedo para se familiarizar com o ambiente, a iluminação, o pé-direito, a movimentação e todo o aparato em torno. Se tiver dúvidas, pergunte antes ao entrevistador, com naturalidade. Lembre-se de que não é obrigado, e na verdade nem deve se submeter a uma entrevista se não sentir segurança sobre o que se passa em volta.
Quando for uma entrevista externa, evite ficar perto de ruídos, cenários desfavoráveis, curiosos que poderão dispersá-lo ou pressioná-lo ou desviar a atenção das pessoas, que deve ser focada em você.
Ao falar no ambiente de uma obra, assegure-se de que todos no local usam EPI, não há vazamentos, entulho ou qualquer outra cena que possa falar contra você ou sua organização.
8 – TÓPICOS PRÁTICOSEU NÃO FALO GRINGO – Procure falar em Português. Palavras incorporadas, como site, não são problema, todo mundo entende. Mas não há vantagem em usar market share em vez de participação no mercado; players em vez de participantes; MBA em vez de pós-graduação... Certamente no seu grupo todos entendem esses termos, mas não é somente para o seu grupo que você fala quando dá uma entrevista.
ORDEM DIRETA – Fale com a lógica mais simples: Sujeito-verbo-predicado, na ordem natural do raciocínio. Inverter as frases é ruim até em textos, quanto mais na fala.
CÓDIGOS - Evite siglas, cifras e termos técnicos.
FALE – Rádio e TV são “falados”. Não queira responder com frases decoradas ou escritas. Isso acaba com a naturalidade.
IDÉIAS FORTES – Marque as palavras centrais para divulgar a sua idéia. Aquilo que é o mais importante na sua resposta deve ser enfatizado. Para isso, você deve treinar antes da entrevista.
SOLUÇÃO – Sempre que a pergunta levantar um problema inicie a resposta com a solução adotada.
ENDOSSO – Não confirme posições que na verdade são do jornalista, não suas.
CLICHÊS – Não use chavões, ditados, frases feitas e clichês. Isso banalizaria a sua fala e o que você pretende é justamente a diferenciação. Cuidado porque algumas dessas expressões não são tão evidentes assim. Por exemplo: Alavancar. Muitas pessoas usam essa palavra em entrevistas, sem constrangimento, mas ela é um tremendo chavão. Correr atrás do prejuízo é outro. A melhor vacina contra essas falhas é o déjà vu: Se você tiver a sensação de que já ouviu aquela expressão várias vezes, não a use, pois esse é o indício de que ela está desgastada. Com certeza você tem a sensação de ter ouvido “alavancar” muitas vezes, não é mesmo?
EDIÇÃO – Fale editado. Se você concentrar o que é importante em uma frase com começo, meio e fim, não será necessário fazer cortes que acabarão distorcendo sua resposta. Geralmente não há edições ruins, mas sim respostas ruins que ficaram piores após a edição.
KINDER OVO – Procure estar preparado para as perguntas-surpresa. Se elas forem comprometedoras, a melhor saída é dizer que não tem as informações ou que precisa verificar e que dará uma resposta logo mais.
SERENIDADE – Não entre em provocações dos jornalistas. Elas não são pessoais, mas sim uma técnica para tirá-lo do sério e conseguir uma declaração mais forte.
SERIEDADE – Não faça gracinhas em uma entrevista. Não faça média com os jornalistas.
PRECONCEITO – Muitas vezes uma entrevista desnuda preconceitos do entrevistado. Vigie os seus, para que eles não acabem passando como idéias de toda a organização.
ESTRATÉGIA – Acostume-se a incluir em todas as entrevistas aquilo que é relevante e estratégico para sua organização. Não se esqueça de pronunciar o nome da organização e os nomes dos projetos envolvidos.
CONSENSO – Nietzsche dizia que só se deve falar sobre o que foi superado, ou seja, quando as coisas estão claras. Se há pontos controversos na organização, eles devem ser debatidos e é necessário definir a posição que irá para a mídia.
VALORES – Seus comentários em uma entrevista não podem, naturalmente, contrariar os valores caros à sua organização. É necessária uma dose extra de responsabilidade ao expor-se em nome do seu grupo. Como pessoa pública você não tem direito a certas liberdades.
SEM GOLEIRO – Propor-se a defender o indefensável é como tentar defender um pênalti com os olhos vendados. Não vai dar certo. Se sua organização passar por isso, as decisões sobre a mídia deverão ser coletivas, moderadas e cautelosas.
CASCAS DE BANANA – Os riscos previsíveis da sua organização devem ser mapeados e uma estratégia deve ser elaborada a respeito deles. Se surgir uma crise, a organização deve agir de acordo com decisões coletivas e o contato com a mídia deve ser centralizado.
NAVIO - Não precisa ficar engessado, mas também não fique balançando o corpo durante uma entrevista. Especialmente não fique trocando o apoio de uma perna para a outra. Pode gesticular, é natural e faz parte da sua expressão, mas não exagere,.
PENDURICALHOS – Se vai aparecer na TV, retire os assessórios dispensáveis, como óculos escuros, bonés, bolsas, canetas no bolso da camisa, celular no bolso do paletó, carteiras que fazem volume na sua roupa etc.
ATENDIMENTO – Educação e cortesia no relacionamento com a mídia contarão a seu favor. Se foi procurado pela imprensa, dê retorno o mais rápido possível. Informe-se sobre a pauta e dê o melhor encaminhamento: passar pela assessoria, definir quem fala e finalmente dar a entrevista. Se você tiver autonomia para decidir por conta própria, reflita rapidamente se vale a pena falar imediatamente ou daqui a 15 minutos. Se possível, ganhe esse tempo para organizar seus pensamentos. Retorne a ligação em seguida. Se a entrevista envolver números ou artigos legais/técnicos, passe-os em seguida por escrito. Coloque-se realmente à disposição para esclarecimentos posteriores.
QUEIXAS – Não fique reclamando da mídia. Isso não é produtivo. Compreenda que a mídia é falha mas é indispensável. Passe a entendê-la como parceira autônoma, que tem seus próprios objetivos mas pode ajudá-lo a conquistar os seus.
RELACIONAMENTO – Cultive relacionamento profissional com jornalistas ao longo dos anos. Isso solidificará sua posição de boa fonte de informações.
ATITUDE – Uma entrevista dura poucos minutos, logo é perfeitamente possível você elevar e manter alta a sua atenção. Fique alerta, mantenha o foco durante toda a entrevista, concentre-se em marcar o gol. Prepare-se, antes da entrevista, para mostrar o melhor de sua capacidade. Não vá para as câmeras com uma atitude displicente. Eleve a energia pessoal, mostre firmeza, clareza, sinceridade.
Boa sorte.