É difícil não simpatizar com uma avó. Velhinha, com o cabelo feito no cabeleireiro e a roupa reservada para casamentos, batizados e aquela ocasião única, a formatura de uma neta, a mulher se aproxima do palco para bater uma foto, mas um segurança a impede. Ela não entende, sorri e tenta de novo, então ele é ainda mais enfático. Não pode.
A cena foi revoltante, mas nenhum jovem, nenhum formando, nenhum entre aqueles jornalistas novinhos em folha se ergueu para denunciá-la. Em vez de combater o sistema, autorizam-no e, pasmem, pagam por ele. As fotos nas formaturas foram proibidas, e com a concordância dos formandos, para que somente os fotógrafos da empresa que organiza o cerimonial possam fazê-las. E cobrar por elas, naturalmente.
Sem nada entender, a idosa se afasta, se conforma, deve ser assim que as coisas funcionam nesse mundo de gente diplomada, vai pensando enquanto se esconde na platéia - afinal gente como ela se sente envergonhada quando alguém lhes chama a atenção. Mesmo em uma ocasião que devia ser feita para elas, as avós, para os pais, para os amigos e para a comunidade.
Faço questão de ir às formaturas dos meus alunos e torço para que essa cerimônia volte àquilo que realmente importa: a estréia de profissionais na crítica à sociedade. Uma interferência debutante que desperte brios e desafie cidadãos. Uma comemoração, sim, mas com um propósito que vá além do destaque ao número de churrascadas realizadas pela turma, ao sofrimento representado pelo Trabalho de Conclusão do Curso e às panelinhas que se formaram ao longo da convivência acadêmica. Uma formatura deve ser um aviso: novos profissionais chegaram, e eles têm visões igualmente novas.
A maior parte dos meus alunos trabalha para pagar os estudos. Alguns não ganham o bastante para isso e são auxiliados pelos pais, que honram mensalidades desproporcionalmente grandes para seus orçamentos. Essas famílias alimentam um comércio altamente lucrativo, que disputa comissões de formatura, arrecada dos estudantes durante pelo menos 4 anos e lhes impõe um formato midiático, espetacular, performático, porém vazio de significado.
Chega dessas formaturas para fazer book. Os discursos de formandos precisam voltar a ter o peso que tiveram no passado, quando eram aguardados e saíam nos jornais. Os estudantes precisam ser novamente respeitados e temidos pela carga de inovação e desafio que são capazes de lançar. Os professores precisam novamente chorar de orgulho e saber que serão superados pela geração que ajudaram a surgir. E as avós precisam poder voltar para casa com uma foto mal focada, porém inesquecível, do momento em que seus netos estrearam na vida adulta.
Se você também acha que as formaturas podem e devem mudar, ajude a formar um cerimonial básico, um guia que auxilie os estudantes a organizarem por si próprios suas colações, com ritos corretos e simples, modestos e virtuosos. Farei link e divulgarei todas as informações oferecidas aos alunos e às comissões de formatura para que cheguem a esse cerimonial elementar.
1 comentários:
Parabéns pelo magnífico texto!
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