De Kant, dizia-se que era possível acertar o relógio pelo horário em que ele saía de casa. Celino Frias, morador de Piraquara, não era nenhum filósofo, a metafísica é uma palavra que ele até se atrapalharia para pronunciar, mas também servia de relógio para os vizinhos. Poderia ser apelidado de Cuco, não fosse o horror que tinha ao barulho, ao escândalo, a qualquer forma de quebra da normalidade.Às 6:45h Celino acordava, às sete ligava o motor do carro, para esquentar, e às sete e quinze saía de casa, chegando à repartição aos dez para as oito. Almoçava sempre no mesmo local, na mesma mesa, na cadeira ao lado da cortina. Jamais ficava de costas para uma janela, para não ser surpreendido por algo que não pudesse ver ou prever, ainda que fosse só uma brisa.
Para os filhos, Celino era quase um fantasma, imperceptível, alguém que pagava as contas, apagava as luzes desnecessárias mas não ficava cobrando isso dos outros. Nunca levantava a voz. Olhava os boletins, mas não exigia notas melhores. A mulher se aborrecia por falar sozinha o tempo todo, mas a certa altura da longa vida em comum compreendeu a índole do marido e tornou-se tolerante. Passou mesmo a ter por ele uma devotada admiração. Na idade madura, estava novamente apaixonada. Sentia-se grata pela vida sem sobressaltos que Celino lhe proporcionara. Defendia-o ardorosamente diante das amigas, que consideravam o compadre um banana.
Ano passado, Celino sofreu um infarte fulminante. Nem combinava com ele, que preferiria uma morte mais lenta, programada, mas essas coisas ninguém escolhe. Foi durante o sono, e pela manhã a mulher o viu tão quieto como sempre, mas estava morto. Decidiu que Celino teria um velório sem arroubos, tranqüilo e harmônico como tinha sido toda a sua vida, e tomou todas as providências. O clima durou até as três da tarde, quando chegou ao velório uma loira fanhosa, com a boca muito pintada, unhas vermelhas e uma saia proibitiva, acompanhada de dois adolescentes com tênis da moda e um ar arrogante. Foi a maior gritaria que já se ouviu em Piraquara, quando a esposa soube que aquela era a segunda família de Celino, que ele, em segredo, mantivera ao longo de pelo menos quinze anos. O caixão rolou na sala e a viúva oficial, ajudada pelos irmãos, arrastou-o até a rua, onde o corpo do falecido foi despejado, em meio a impublicáveis xingamentos. Celino, o quieto, só não foi chutado porque isso é pecado.
(O Estado do Paraná, 6 de fevereiro de 2000. A ilustração é do site chanceapaz.blogspot.com)
1 comentários:
Extremamente quieto.
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